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T4 na Avenida da Boavista e a Física Quântica dos 48 Euros

Este título deve deixar os leitores um pouco confusos à primeira vista, mas passo a explicar.

Estava eu a passear descontraidamente pelo Idealista (esse portal onde qualquer comum mortal entra “só para ver preços” e sai meia hora depois a questionar todas as decisões de vida que o trouxeram até aqui), quando tropecei num anúncio de um T4 duplex na Avenida da Boavista. O preço? Uns simpáticos, acessíveis e perfeitamente redondos 2.859.048 €.

Dois milhões, oitocentos e cinquenta e nove mil, e quarenta e oito euros.

Mas que raio de precisão cirúrgica é esta? Isto não é preço de imobiliário de luxo, é o saldo final de um talão de supermercado, depois de cupões, cartão de fidelização e uma embalagem de pilhas em promoção que ninguém precisava, mas que estava mesmo ali na caixa.

Fiquei imediatamente fascinado com a engenharia mental que deu origem a este número. Imagino o proprietário, calculadora científica numa mão e uma pasta cheia de faturas na outra, sentado à frente do gestor imobiliário:

“A casa vale 2.850.000 €. Mas atenção, que eu mudei o silicone da banheira em 2022 e aquilo custou-me 9.000 €. Ah, e não esquecer os 48 euros do trinco da porta da despensa que comprei no Leroy Merlin, com fatura e tudo, que eu guardo essas coisas. Façam o favor de somar tudo ao cêntimo, que eu não ando aqui a fazer caridade a quem compra duplexes.”

Qual era o problema de arredondar para os 2.860.000 €? Alguém que dá quase três milhões de euros por um apartamento na Boavista vai mesmo olhar para os 952 euros de troco e pensar: “Ui, não sei, este mês o orçamento está apertado, se calhar é melhor procurar um T3 mais humilde”?

Ou, no sentido inverso, onde está a imensa generosidade de baixar quarenta e oito euros e deixar aquilo nuns limpos 2.859.000 €? Será que abdicar do preço de uma tábua de queijos e duas cervejas artesanais ia levar o proprietário à falência técnica?

Imagino o drama no dia da escritura se o comprador aparecesse com um cheque visado de exatamente 2.859.000 € e o vendedor se recusasse a assinar:

“Lamento, mas sem os 48 euros finais não há negócio. Vá ali ao multibanco levantar duas notas de vinte e uma de dez, que eu depois logo lhe passo o troco de dois euros em moedas de bronze. E não me venha com um MBWay, que isto é uma escritura, não é a conta do restaurante.”

Malta do imobiliário de luxo, por favor, tenham compaixão pela nossa sanidade mental. Se vão cobrar o PIB de uma pequena nação insular por um apartamento, poupem-nos aos trocos. É que dar quase três milhões por uma casa já custa. Ter de ir buscar moedas ao cinzeiro do carro para perfazer o valor total é só humilhante.

T4 na Avenida da Boavista e a Física Quântica dos 48 Euros

Este título deve deixar os leitores um pouco confusos à primeira vista, mas passo a explicar.

Estava eu a passear descontraidamente pelo Idealista (esse portal onde qualquer comum mortal entra “só para ver preços” e sai meia hora depois a questionar todas as decisões de vida que o trouxeram até aqui), quando tropecei num anúncio de um T4 duplex na Avenida da Boavista. O preço? Uns simpáticos, acessíveis e perfeitamente redondos 2.859.048 €.

Dois milhões, oitocentos e cinquenta e nove mil, e quarenta e oito euros.

Mas que raio de precisão cirúrgica é esta? Isto não é preço de imobiliário de luxo, é o saldo final de um talão de supermercado, depois de cupões, cartão de fidelização e uma embalagem de pilhas em promoção que ninguém precisava, mas que estava mesmo ali na caixa.

Fiquei imediatamente fascinado com a engenharia mental que deu origem a este número. Imagino o proprietário, calculadora científica numa mão e uma pasta cheia de faturas na outra, sentado à frente do gestor imobiliário:

“A casa vale 2.850.000 €. Mas atenção, que eu mudei o silicone da banheira em 2022 e aquilo custou-me 9.000 €. Ah, e não esquecer os 48 euros do trinco da porta da despensa que comprei no Leroy Merlin, com fatura e tudo, que eu guardo essas coisas. Façam o favor de somar tudo ao cêntimo, que eu não ando aqui a fazer caridade a quem compra duplexes.”

Qual era o problema de arredondar para os 2.860.000 €? Alguém que dá quase três milhões de euros por um apartamento na Boavista vai mesmo olhar para os 952 euros de troco e pensar: “Ui, não sei, este mês o orçamento está apertado, se calhar é melhor procurar um T3 mais humilde”?

Ou, no sentido inverso, onde está a imensa generosidade de baixar quarenta e oito euros e deixar aquilo nuns limpos 2.859.000 €? Será que abdicar do preço de uma tábua de queijos e duas cervejas artesanais ia levar o proprietário à falência técnica?

Imagino o drama no dia da escritura se o comprador aparecesse com um cheque visado de exatamente 2.859.000 € e o vendedor se recusasse a assinar:

“Lamento, mas sem os 48 euros finais não há negócio. Vá ali ao multibanco levantar duas notas de vinte e uma de dez, que eu depois logo lhe passo o troco de dois euros em moedas de bronze. E não me venha com um MBWay, que isto é uma escritura, não é a conta do restaurante.”

Malta do imobiliário de luxo, por favor, tenham compaixão pela nossa sanidade mental. Se vão cobrar o PIB de uma pequena nação insular por um apartamento, poupem-nos aos trocos. É que dar quase três milhões por uma casa já custa. Ter de ir buscar moedas ao cinzeiro do carro para perfazer o valor total é só humilhante.