Os Anos 80 deviam ter sido apenas uma ponte (E a culpa é do sintetizador, e não só)
Como alguém que aterrou neste planeta em 1978, a minha infância foi irremediavelmente atropelada pelos anos 80. E embora a nostalgia coletiva insista em pintar essa década como a era de ouro da humanidade, quem me conhece sabe que tenho uma teoria pouco popular, mas profundamente honesta: os anos 80 deviam ter sido apenas uma ponte direta para os anos 90. Se tivéssemos saltado de 1979 para 1990 a bordo do DeLorean de 1981, transformado pelo “Doc” Brown numa máquina do tempo (sim, tenho perfeita noção da ironia de recorrer a um filme dos próprios anos 80 para escapar deles), o mundo teria poupado milhões em laca e, acima de tudo, eu teria sido poupado a traumas estéticos e auditivos.
Comecemos pelo óbvio: o crime visual que foi a moda daquela época. Que força misteriosa convenceu uma geração inteira de que andar na rua vestido com cores fluorescentes, dignas de um colete de sinalização rodoviária, era uma boa ideia? Os fatos de treino, então, mereciam um tribunal só para eles: padrões psicadélicos que pareciam ter sido desenhados por alguém a testar os limites do próprio LSD, riscas geométricas em choque direto umas com as outras, tudo isto vestido com o à vontade de quem achava que estava impecável. E os chumaços nos ombros. Casacos, camisolas, até vestidos de festa, todos com aquela ambição de fazer qualquer pessoa parecer um jogador de futebol americano prestes a entrar em campo, mesmo que fosse só para ir buscar pão.
Juntemos a isso os cabelos frisados e lacados que desafiavam não só a gravidade, mas também todas as regras básicas de segurança contra incêndios. O volume capilar era proporcional à opulência e ao exagero. Olhar para as fotografias de família desse tempo não é uma viagem ao baú das memórias, é prova documental de que a humanidade perdeu coletivamente o juízo estético durante dez longos anos.
Mas o meu verdadeiro pesadelo, aquilo que me faz acordar a meio da noite com suores frios, não é a roupa de lycra. É a música, meus amigos. É a música.
Há quem se emocione com a nostalgia dos anos 80. Eu não. Só preciso de ouvir aquele som característico de órgão de plástico ou de sintetizador digital primitivo para me darem arrepios de terror na espinha. Parecia que toda a gente tinha decidido despedir bateristas e guitarristas para os substituir por uma máquina Roland programada por um robô sem sentimentos. Tudo soava a plástico, a digitalizado, a demasiado limpo e artificial. A transição para a sujidade orgânica do som dos anos 90 não foi apenas uma mudança de género musical, foi um ato de sobrevivência para os meus ouvidos.
Para não ser acusado de cinismo total, admito que nem tudo foi um deserto absoluto. Tivemos a televisão para nos salvar o juízo. Foi a década em que aprendemos que o MacGyver conseguia desarmar uma bomba nuclear com uma pastilha elástica e um clipe de papel, em que o Michael Knight conversava casualmente com o seu carro, e em que o Esquadrão Classe A resolvia qualquer crise sem que ninguém, milagrosamente, saísse gravemente ferido. Havia uma inocência e um entretenimento genuíno nessas séries que ainda hoje me deixam um sorriso na cara.
Mas tirando essas pequenas ilhas de salvação televisiva, os anos 80 continuam a ser aquela década sob a qual prefiro lançar um manto de silêncio. Sobrevivi? Sim. Mas se pudesse apagar o sintetizador da história da música, e os chumaços da história da moda, e passar diretamente para uma guitarra com distorção, o mundo seria um lugar esteticamente muito mais pacífico.
Ou não.
Os Anos 80 deviam ter sido apenas uma ponte (E a culpa é do sintetizador, e não só)
Como alguém que aterrou neste planeta em 1978, a minha infância foi irremediavelmente atropelada pelos anos 80. E embora a nostalgia coletiva insista em pintar essa década como a era de ouro da humanidade, quem me conhece sabe que tenho uma teoria pouco popular, mas profundamente honesta: os anos 80 deviam ter sido apenas uma ponte direta para os anos 90. Se tivéssemos saltado de 1979 para 1990 a bordo do DeLorean de 1981, transformado pelo “Doc” Brown numa máquina do tempo (sim, tenho perfeita noção da ironia de recorrer a um filme dos próprios anos 80 para escapar deles), o mundo teria poupado milhões em laca e, acima de tudo, eu teria sido poupado a traumas estéticos e auditivos.
Comecemos pelo óbvio: o crime visual que foi a moda daquela época. Que força misteriosa convenceu uma geração inteira de que andar na rua vestido com cores fluorescentes, dignas de um colete de sinalização rodoviária, era uma boa ideia? Os fatos de treino, então, mereciam um tribunal só para eles: padrões psicadélicos que pareciam ter sido desenhados por alguém a testar os limites do próprio LSD, riscas geométricas em choque direto umas com as outras, tudo isto vestido com o à vontade de quem achava que estava impecável. E os chumaços nos ombros. Casacos, camisolas, até vestidos de festa, todos com aquela ambição de fazer qualquer pessoa parecer um jogador de futebol americano prestes a entrar em campo, mesmo que fosse só para ir buscar pão.
Juntemos a isso os cabelos frisados e lacados que desafiavam não só a gravidade, mas também todas as regras básicas de segurança contra incêndios. O volume capilar era proporcional à opulência e ao exagero. Olhar para as fotografias de família desse tempo não é uma viagem ao baú das memórias, é prova documental de que a humanidade perdeu coletivamente o juízo estético durante dez longos anos.
Mas o meu verdadeiro pesadelo, aquilo que me faz acordar a meio da noite com suores frios, não é a roupa de lycra. É a música, meus amigos. É a música.
Há quem se emocione com a nostalgia dos anos 80. Eu não. Só preciso de ouvir aquele som característico de órgão de plástico ou de sintetizador digital primitivo para me darem arrepios de terror na espinha. Parecia que toda a gente tinha decidido despedir bateristas e guitarristas para os substituir por uma máquina Roland programada por um robô sem sentimentos. Tudo soava a plástico, a digitalizado, a demasiado limpo e artificial. A transição para a sujidade orgânica do som dos anos 90 não foi apenas uma mudança de género musical, foi um ato de sobrevivência para os meus ouvidos.
Para não ser acusado de cinismo total, admito que nem tudo foi um deserto absoluto. Tivemos a televisão para nos salvar o juízo. Foi a década em que aprendemos que o MacGyver conseguia desarmar uma bomba nuclear com uma pastilha elástica e um clipe de papel, em que o Michael Knight conversava casualmente com o seu carro, e em que o Esquadrão Classe A resolvia qualquer crise sem que ninguém, milagrosamente, saísse gravemente ferido. Havia uma inocência e um entretenimento genuíno nessas séries que ainda hoje me deixam um sorriso na cara.
Mas tirando essas pequenas ilhas de salvação televisiva, os anos 80 continuam a ser aquela década sob a qual prefiro lançar um manto de silêncio. Sobrevivi? Sim. Mas se pudesse apagar o sintetizador da história da música, e os chumaços da história da moda, e passar diretamente para uma guitarra com distorção, o mundo seria um lugar esteticamente muito mais pacífico.
Ou não.